Dicas ambientais para pôr em prática em 2020
Há 10 minutos
A família Telo espera sarar a ferida dentro de um mês a um mês e meio. Mas o mais provável é que o capítulo só se feche ao fim de sessenta dias.Dois meses não é muito, se pensarmos que a sofrimento corrói a família há 35 anos. Faz no próximo dia 25 de Maio três décadas e meia que Gabriel, o segundo dos cinco filhos do casal Telo, natural do Paul do Mar, sucumbiu aos ferimentos provocados por um engenho explosivo detonado pelo inimigo, em Guidaje, na Província da Guiné.A explosão provocou apenas ferimentos num braço, mas a falta de socorro acabou por ser-lhe fatal. Duas semanas depois, a 4 de Junho, o governador e comandante-chefe da Província da Guiné, António de Spínola, escrevia a Maria Flora Ferreira Telo, mãe do 1.º cabo Telo. «Cumpro penosamente o dever de lhe transmitir os agradecimentos da Pátria e de lhe expressar o meu muito sentido pesar pela perda de seu filho, que morreu em combate no passado dia 25 de Maio, vítima do rebentamento de um engenho inimigo».O general, que no ano seguinte viria a ascender à Presidência da República Portuguesa, com a revolução do 25 de Abril, elogiou o jovem soldado, de 23 anos. «O seu filho foi um militar digno e aprumado, tendo demonstrado possuir qualidades de dedicação e de coragem que estão na base do louvor que lhe vai ser atribuído». O 1.º cabo Telo não foi o único a morrer naquele combate. João Nunes Ferreira, natural de Câmara de Lobos, e nove militares do continente, três dos quais pára-quedistas, também pereceram.Todos foram enterrados no local e assim permaneceram nos últimos 35 anos.Mas os pára-quedistas nunca deixam os seus homens para trás. E no grupo que sucumbiu havia três.Num esforço conjunto entre a Liga dos Combatentes e a União Portuguesa dos Pára-quedistas, arrancou em 2007 uma operação de busca dos restos mortais dos soldados de Guidaje.Um croqui feito por quem os ajudou a sepultar identificando o local e os soldados veio a ser fundamental para o sucesso da operação.A razão para o regresso a África foram os três pára-quedistas, mas por «uma questão de solidariedade» e «camaradagem» os responsáveis entenderam que deviam levantar os restantes corpos, incluindo os dois madeirenses.O presidente da União Portuguesa de Pára-quedistas, o general Avelar de Sousa, garante que os pára-quedistas nunca foram esquecidos mas só agora ficaram reunidas as condições que permitiram intervir.Com os meios técnicos e logísticos adequados, deu-se início ao trabalho de obtenção de autorizações, sobretudo do governo da Guiné-Bissau, para a recolha dos homens. Paralelamente, foram compostas duas equipas. Uma criava as «condições logísticas e de vida» da outra. Esta era composta por antropólogos, geólogos, geofísicos e «todo o pessoal tecnicamente habilitado» para «pesquisar, encontrar, desenterrar, limpar e analisar os restos mortais dos cadáveres», referiu Avelar de Sousa.A equipa de logística fez as primeiras escavações em Guidaje, a 7 de Março de 2008. A 14 de Março, chegou a equipa técnica, que prolongou as escavações até encontrar as ossadas.Os restos mortais dos três pára-quedistas já foram identificados.Os testes de ADN, feitos a partir da recolha da amostra de saliva de familiares, atestam a veracidade da informação constante no croqui.Por isso ninguém tem dúvidas quanto à identificação dos restantes militares. «Estamos só a confirmar», diz o general.Para que haja essa ratificação é essencial, no entanto, que a família colabore.Só que nem todas estão a reagiar da mesma maneira. Enquanto que Gabriela Telo, irmã do 1.º cabo do Paul do Mar, se mostrou colaborante no que foi preciso, já a irmã de João Nunes Ferreira, de Câmara de Lobos, se recusou a fazer os testes de ADN.Délia Ferreira justifica-se dizendo que prefere não «reavivar» uma situação «que foi muito dolorosa» e «triste» para a família. A irmã não quer ser sujeita aos testes, mas admite a vinda dos restos mortais do irmão. A mãe «sempre gostava que o filho viesse para a sua terra», justificou. O general Avelar de Sousa não interfere. «Eu tanto respeito muitíssimo as famílias que querem o regresso dos restos mortais dos seus entes queridos, como respeito aquelas que não os querem».Daí que diga que «só serão trazidos restos mortais de indivíduos cujas famílias assim o desejem», excluindo a hipótese de virem contra a vontade dos familiares para serem enterrados no espaço destinado aos ex-combatentes.Se não quiserem, os restos mortais não sairão da Guiné. Ficarão naquele território, sendo trasladados para um cemitério digno.Como os pais do soldado Ferreira já faleceram, são os irmãos que tratam do assunto. Délia Ferreira foi o primeiro contacto dos militares, mas agora a responsabilidade está a passar para o irmão, Francisco Ferreira. «Se nós não temos despesa, podem trazer», disse ao JM, admitindo, por outro lado, fazer os testes de ADN.O pai de Gabriel Telo também já faleceu. Há cerca de 10 anos. A mãe, Maria Flora, continua a pensar no filho e fala agora mais nele, pois julga que está quase a chegar uma pequena porção de terra donde está sepultado o filho.Maria Flora já é uma mulher idosa e tem andado doente, por isso os filhos optaram por não dizer que entre Junho e Julho as ossadas do filho vêm para a Madeira. Têm receio do impacto que a notícia possa ter. Falam antes na porção de terra. A ideia entusiasma Flora, que agora fala frequentemente no assunto e espera que seja colocada no local onde foi sepultado o pai.Na última semana estivemos a conversar com Gabriela e Maria João, as irmãs mais velhas e mais novas de Gabriel. A viagem ao passado foi dolorosa, mas o álbum fotográfico do antigo militar que a família guarda deu uma ajuda. Lá, Gabriel aparece em criança, adolescente, com a família, a jogar futebol e na guerra na Guiné. «Parece-me que faltavam três meses para ele voltar», começa por dizer Gabriela.Na verdade, nem era para Gabriel ter ido, se o jovem que foi arranjado para o substituir não tivesse, também ele, sido chamado para a guerra. A “jogada” tinha resultado com o irmão mais velho, Manuel, mas Gabriel não teve a mesma sorte e teve mesmo de largar o Clube União.«Asseado, vaidoso e sem palavrões»Nem sequer era esperado que Gabriel estivesse no fatídico combate, dado que já tinha terminado o seu tempo no mato. «Mas foi preciso reforços e ele teve de ir», diz Gabriela.Ferido por um explosivo num braço e sem assistência, acabou por falecer. Gabriel Telo era um jovem normal, mas até era um «pouco avançado para a sua época», caracteriza a irmã Gabriela, dois anos mais nova do que o militar.Os hábitos do jovem passavam por futebol, música, ler banda desenhada, apanhar melros e ajudar na igreja. Foi sacristão no antigo templo e ajudou a construir a nova igreja da freguesia.Com o dinheiro que ganhou na construção civil, comprou o primeiro fogão da família e uma das primeiras bicicletas do Paul do Mar. Tinha 16 anos. «Ele foi aos Prazeres, pela ladeira, buscar a bicicleta», diz, a sorrir Gabriela. Segundo as irmãs, «ele era muito asseado, muito vaidoso e nem dizia palavrões».Por essa altura o pai já tinha regressado da Venezuela, onde tinha estado uma década a ganhar dinheiro no mar para recuperar a casa velha que havia comprado e para sustentar a família. Com a missão cumprida, o pescador voltou para casa.«Nunca passámos fome, ele nunca se esqueceu de nós», diz Gabriela, orgulhosa.O filho mais velho, Manuel, seguiu as pisadas do pai, mas o mar nunca fascinou Gabriel.«O meu pai não o levava, porque ele vomitava. Era um 'menino'», brinca a irmã Maria João, soltando uma gargalhada.Os cuidados do carteiroMas quando a chamada para a tropa chegou as coisas mudaram.«Ele disse-me que não tinha vontade nenhuma de ir matar ninguém», diz Gabriela, revoltando-se com o facto de, como outros, ele ter sido obrigado a ir para a guerra.Também Délia Ferreira afirma que o irmão não gostava nem queria ir para a guerra. Dos 14 filhos que o casal Ferreira teve, apenas dois estiveram em conflitos. O mais velho combateu em Angola, mas veio ileso. João Nunes já tinha cumprido mais de um ano na Guiné quando faleceu.«Eu lembro-me perfeitamente que o senhor carteiro veio na parte da tarde entregar a carta directamente à minha mãe», conta Délia Ferreira. «Foi um choque muito grande. A minha casa parecia que ia para o ar. Foi uma tristeza muito, muito grande. A minha mãe ficou de rastos», recorda-se.A notícia também caiu como uma bomba na casa de Maria Flora. O irmão mais velho é que foi buscar o telegrama que anunciava a morte. «A minha mãe nunca mais foi a mesma», diz a Maria João, com os olhos baixos.Mas, agora, as irmãs crêem que a vinda dos restos mortais do irmão vai significar o fim do luto, o encerrar de um ciclo.A família já começa a preparar a chegada das ossadas. O filho de Gabriela está empenhado neste processo e, como desenhador, já manifestou a vontade de criar uma lápide.O jovem até já enviou para o telemóvel da mãe o desenho de uma cruz para colocar na lápide, inspirado noutra que viu na reportagem da SIC, feita recentemente sobre o assunto.Ida a África abriu precedenteO presidente da União Portuguesa dos Pára-quedistas diz haver um sentimento de “missão cumprida” com a identificação e trasladação dos três pára-quedistas que morreram no combate de 25 de Maio de 1973.«Estamos animados da melhor boa vontade. A nossa postura é de grande simplicidade. Não procuramos protagonismos, nem estrelatos. Fazemos uma coisa que entendemos justa, porque é uma norma dos pára-quedistas - “Ninguém fica para trás”», comentou o general Avelar de Sousa.O presidente da União Portuguesa dos Pára-quedistas entende também esta operação na Guiné-Bissau como um «precedente».O general diz que «é da maior justiça que se há famílias que desejem ter os restos mortais dos seus entes queridos, que essa possibilidade lhes seja proporcionada».JM noticiou a morte do “promissor” jogadorO Jornal da Madeira noticiou a morte do “promissor” jogador do União, Gabriel Telo.Na edição do dia 17 de Junho de 1973, o JM começa a notícia referindo que o «irmão do consagrado extremo-esquerdo unionista Telo» e «jovem muito promissor» tinha falecido na guerra na Guiné.Depois de ter recordado que Gabriel tinha surgido há cerca de três anos na primeira categoria do C.F. União, o jornal elogiava as capacidades do jovem, ao afirmar que «exibição após exibição o jovem atleta conquistou a pedra-e-cal o lugar de titular na equipa», sendo «sem dúvida um dos maiores trunfos dos azuis-amarelos».O JM falava ainda nas características deste extremo-direito do C.F. União. «Veloz e bom executante, Gabriel distinguiu-se também, e muito especialmente, pela sua extraordinária disciplina no campo de jogo, quer para com os adversários, colegas e árbitros», pode ler-se naquela edição.