
No próximo dia 27 comemora-se o centenário do nascimento do poeta madeirense Vasco da Gama Rodrigues. Natural do Paul do Mar, é uma figura interessante da cultura portuguesa com ligação a Fernando Pessoa.
Em termos de produção literária afirmou-se a partir dos anos 60, com a publicação de 'Os Atlantes' (1961). A sua segunda obra foi editada em 1972 e intitula-se 'As Três Taças'. Escreveu em jornais e revistas literárias e, em 1991, surge 'O Cristo das Nações', uma obra póstuma.
Apesar de reduzida em termos de dimensão, a obra de Vasco da Gama Rodrigues "é significativa por estar associada a grandes nomes da cultura portuguesa, como Fernando Pessoa, Agostinho da Silva e Júlio Fragata, e por comungar de uma grande corrente que é a obra profético-messianista da cultura portuguesa", diz a propósito o historiador José Eduardo Franco.
A estudar neste momento o poeta, diz que "é interessante destacá-lo, não só por ter convivido com Fernando Pessoa, mas pelo facto de a sua obra, sobretudo 'Os Atlantes', fazer eco do projecto e dos ideais que estão na base da 'Mensagem' de Fernando Pessoa".
Relembra que esta obra, "uma espécie de 'Lusíadas' modernos, pretende numa perspectiva nacionalizante destacar as grandes figuras da cultura portuguesa e despertar Portugal do seu nevoeiro, da sua hora sombria, da letargia, numa perspectiva messiânico-profético sebastianista".
Liderança portuguesa
Para o historiador, é curioso que, nos anos 60, Gama Rodrigues regresse a esse tópico e, "nessa perspectiva tradicionalista e nacionalizante, destaque a fundação lusitana na linha da corrente que fazia remontar as raízes portuguesas aos lusitanos, e à ideia de Portugal como terra do fogo, a terra da luz, de onde deriva precisamente o étimo 'lusitano'".
Na sua opinião, Gama Rodrigues atribui um protagonismo novo a Portugal, no quadro da filosofia portuguesa de Agostinho da Silva e de Álvaro Ribeiro. "Os verdadeiros 'Atlantes', os homens superiores, estariam em Portugal e iriam marcar e encabeçar a liderança de um mundo novo".
Conforme explica José Eduardo Franco, é retomar os tópicos do sebastianismo, do messianismo nacionalista e o reafirmar de uma portugalidade que tem uma palavra a dizer no âmbito da nova recomposição do xadrez mundial.
Ideário de Pessoa
"A sua obra situa-se nesta corrente e é curioso termos um madeirense a produzir pensamento nessa linha. Podemos destacar a sua importância pelo facto de continuar o ideário de Fernando Pessoa", acrescenta.
Vasco da Gama Rodrigues era filho de Maria Amélia d'Andrade e de Francisco Hilário. Esteve radicado em Moçambique, regressando depois a Portugal, onde ingressou no Secretariado Nacional de Informação. Exerceu funções de inspector da Secção de Turismo. Faleceu a 3 de Maio de 1991.
Em 2001, dez anos após a sua morte, a Câmara Municipal de Lisboa presta-lhe homenagem atribuindo o seu nome a uma rua, situada em Santa Maria dos Olivais, e publicando um opúsculo sobre a sua vida e obra. "Distinguiu-se como poeta com uma obra reflexiva, que faz os leitores penetrarem no mistério das raízes antigas da nacionalidade, através do mito, do símbolo e da profecia, escreve Teresa Sancha Pereira, no referido estudo.
A propósito de 'As três Taças' - que conta com uma introdução de José Luís Conceição Silva, Agostinho da Silva e Júlio Fragata -, diz que o poeta "apresenta a história do Ocidente, explicando a sua missão na conservação da tradição espiritual e abre perspectivas para o aparecimento da humanidade numa nova Idade de Ouro". Tem sido considerado "um dos autores, entre muitos, como Fernando Pessoa ou Luna de Carvalho, que leu, buscou e intuiu o futuro de Portugal", refere ainda Teresa Sancha Pereira.
Raízes da nacionalidade
No prefácio de 'O Cristo das Nações', A. C. Teixeira destaca que Gama Rodrigues leva-nos "a penetrar no mistério das raízes remotas da nacionalidade - perdido na noite milenar dos tempos e transposto para o grande mito, esse mito que como ilhéu que era (...) melhor do que qualquer continental, o sentia rodeá-lo - o mito da Atlântida".
Conhecer o poeta
Cita a opinião do filósofo Agostinho da Silva a propósito de Gama Rodrigues. Mostra-o "como um místico, 'isto é, convicto que o possível é mais vasto que o real, e a ele aderindo em suas crenças, raciocínios e vida, respeita a ciência, mas ultrapassa-a, e acha, por outro lado, que o divino é mais importante que o bancário (...)'".
Eugénio Perregil, teólogo madeirense, admirador acérrimo da literatura clássica, disse ao DIÁRIO que Gama Rodrigues "não pode ser esquecido pela importância que tem lá fora". Na sua opinião, seria interessante criar "momentos nas escolas para a dar a conhecer o poeta".
Fonte: Diário de Notícias / Teresa Florença

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