(Nota prévia: Por motivos profissionais acho este assunto/notícia, merece um destaque no meu blog)Se há uns anos a esta parte eram os homens os mais afectados pelo vício do álcool, hoje em dia são muitas as mulheres que enfrentam este problema. Depressão, violência doméstica e desemprego têm levado muitas mulheres para a Unidade de Alcoologia São Ricardo Pampuri, da Casa de Saúde São João de Deus. De acordo com dados facultados ao JM por aquela instituição, desde 2003 que os números não páram de aumentar. Se há seis anos a percentagem rondava os 10 por cento, hoje em dia já chega aos 18.
Embora a grande maioria das pessoas internadas seja do sexo masculino, só em 2008 foram admitidas neste centro de recuperação 48 utentes do sexo feminino, mais três por cento em relação a 2007.
Unidade de Alcoologia trata cada vez mais mulheresNeste momento existe um programa regional (Rede Alcoólica Regional) onde a Casa de Saúde São João de Deus dispõe a unidade para internamento. João Eduardo Lemos diz que a este respeito existem 13 equipas concelhias que acompanham a família e os próprios utentes na sua comunidade.A Casa de Saúde São João de Deus tem assumido desde 1979 um papel de destaque no tratamento de pessoas viciadas no álcool. Em 30 anos já ajudou a tratar mais de oito mil alcoólicos, através da Unidade de Alcoologia São Ricardo Pampuri.Considerado um problema de saúde pública, o alcoolismo continua a atingir mais homens que mulheres. Contudo, de há alguns anos a esta parte, estão a dar entrada naquela unidade de tratamento cada vez mais utentes do sexo feminino. Segundo dados facultados pela Casa de Saúde S. João de Deus, desde 2003 que o número de mulheres internadas está a crescer em média três por cento por ano. Neste momento, 18 por cento das pessoas internadas para tratamento do álcool são do sexo feminino.
Segundo o director da Casa de Saúde São João de Deus, João Eduardo Lemos, «se no início as mulheres recorriam menos ao tratamento, neste momento, o número de mulheres internadas tem vindo a aumentar substancialmente e em idades jovens». Como passou a explicar, «estas mulheres rondam a casa dos 20-30 anos e são pessoas activas, que têm família e são participativas na sua cidadania».
Já os homens, embora também tenham família e trabalho chegam a esta unidade com mais idade, na maioria das vezes na casa dos 40-50 anos. Um factor que tem sobretudo a ver com a fisiologia do homem e da mulher, isto é, os homens tendencialmente têm mais resistência ao álcool. Por exemplo, frisa o director, «a cirrose hepática aparece muito mais cedo nas mulheres do que nos homens».Uma vez chegados à Unidade de Alcoologia, os utentes começam logo por ter um corte radical da substância, passando logo para uma abstinência continuada. «Temos ainda de dotar as pessoas que nos procuram para, por um lado, não consumir bebidas alcoólicas e, por outro lado, serem capazes de, aquando de situações adversas da vida, sejam capazes de recorrer a outras estratégias que não o consumo de álcool», explica o director da Casa de Saúde. Em termos de apoios, neste momento, existe um programa regional (Rede Alcoólica Regional) onde a Casa de Saúde S. João de Deus dispõe a unidade para internamento. João Eduardo Lemos diz, a este respeito, que existem 13 equipas concelhias que fazem um trabalho de proximidade, acompanham a família e os próprios utentes nas respectivas localidades. Estas equipas fazem um diagnóstico das necessidades e desenvolvem um trabalho no terreno no sentido de encontrar a origem do problema.
Para além destas, existem ainda associações de auto-ajuda para pessoas com problemas ligados ao álcool. «As associações têm feito um grande trabalho junto das pessoas , particularmente das que estão abstinentes e que estão sem consumir porque, aí, é fundamental o trabalho continuado para a prevenção da recaída. Tudo porque nesta situação, do alcoolismo ou doença crónica, a recaída faz também que parte do processo, ela está a cada passo e pode acontecer a qualquer momento». Nestes casos, é importante que a família esteja preparada e entenda que não se trata de «uma catástrofe mas sim de um processo». Na opinião deste responsável, é sobretudo nestas alturas que se torna muito importante o papel das associações. «Estas têm o papel de motivar e de colocar nas pessoas um entendimento de que os problemas não são só deles mas também semelhantes a muitas outras pessoas».
Internamento tem a duração de quatro semanas mas poderá prolongar-se
Unidade tem capacidade para 22 utentes
A Unidade de Alcoologia São Ricardo Pampuri tem capacidade para receber em regime de internamento 22 pessoas. Normalmente, a Casa de Saúde S. João de Deus satisfaz todas as necessidades em matéria de tratamento e recuperação de todos os problemas associados ao álcool na Região. Um trabalho que resulta de uma rede de parceria com as unidades e com os centros que também internam ali os doentes.
De acordo com o coordenador desta unidade, Sérgio Lima, o centro está preparado para receber pessoas de ambos os sexos, dispõe de dormitórios, salas de convívio e de reuniões. As visitas podem ser feitas de manhã até ao final da tarde, um período alargado que, na opinião deste enfermeiro, permite uma maior interacção entre a equipa de profissionais, família e utente.
Um facto curioso, e já destacado no início deste trabalho, é o aumento da adesão de mulheres a este tipo de tratamento. «Neste momento, e fazendo uma pequena estatística em relação aos primeiros três meses deste ano, temos uma taxa de ocupação de internamento do sexo feminino que ronda os 25-30 por cento», conta Sérgio Lima.
Um número bastante elevado se tivermos em conta que em 2003 a percentagem total de mulheres admitidas em regime de internamento naquela unidade não ultrapassou os dez por cento.
Ao todo, e já que falamos em admissões, em média, por ano passam por este centro à volta de 300 pessoas.
Algumas conseguem livrar-se da sua dependência alcoólica logo no primeiro internamento, outras têm de prolongar o tratamento ou voltar a ser internadas após uma recaída.
De salientar que, a nível de parcerias, esta unidade trabalha com a consulta de alcoologia do Hospital Central do Funchal, esta unidade trabalha ainda com as unidades concelhias de saúde mental e com as associações de auto-ajuda, mais propriamente com a Associação Anti-Alcoólica da Madeira e a Associação Mão Amiga.
Psiquiatra sugere para evitar possíveis recaídas
Acompanhamento devia ser mais frequente
Embora todos os meses sejam realizadas reuniões pós-alta com os utentes na Casa de Saúde S. João de Deus, a psicóloga Orlanda Olim e o psiquiatra João Paulo Abreu entendem que esta periodicidade deveria ser mais curta. Na opinião do médico, ao aumentar a frequência dos encontros haveria um acompanhamento muito mais próximo. «No tempo de espera entre a primeira e a segunda consulta pós-alta é muito importante porque é nesta altura que poderá haver recaída ou não», defende o médico.
No seu entender, deveria haver um investimento maior sobretudo ao nível dos centros de saúde pois são aqueles que estão mais próximos da pessoa após a sua alta.
Consumo prematuro de álcool eleva probabilidade de dependência
Segundo o psiquiatra, o abuso e dependência do álcool pode levar a um quadro depressivo que precisa de ser acompanhado, sobretudo na fase de abstinência. Por tratar-se de uma doença e por haver uma alteração de personalidade e de comportamento, por vezes é necessário recorrer ao tratamento através de psicofármacos. «O problema começa com pequenos consumos e depois acaba por ganhar outros contornos, sobretudo a lesão de órgãos. Nesta fase há uma degradação da pessoa em termos do seu funcionamento físico como psíquico», explicou o médico.
O facto de os jovens começarem a consumir álcool cada vez mais cedo é também, na opinião de Orlanda Olim, meio caminho andado para que, na idade adulta ganhem dependência alcoólica. Quando se chega a este grau, o défice de competências vai diminuindo e há uma grande dificuldade em negar o álcool. Quando a família começa a encostar a pessoa à parede começa a aumentar a resistência. É aqui que entra o nosso trabalho», explica a especialista em trabalho clínico e saúde mental, adiantando que «é nesta altura que temos de entrar pela entrevista motivacional, isto é, levar a própria pessoa a falar das suas preocupações, dos seus problemas familiares, sociais ou profissionais, para que ela acabe por perceber que essas dificuldades surgiram porque estava dependente do álcool».
Filipa Cardoso acompanha o processo
Reuniões provam ser importantes no antes e depois do tratamento
O trabalho do serviço social da área da alcoologia, da Casa de Saúde S. João de Deus, incide-se nas vertentes de acompanhamento aos utentes e seus familiares; no atendimento destes familiares e na realização de reuniões psicopedagógicas. Filipa Cardoso é assistente social e é quem acompanha os utentes e respectivas famílias no processo de tratamento. Segundo esta, «noventa e nove por cento das famílias chegam ao serviço já muito fragilizadas por causa do alcoolismo». A assistente social explica que este quadro tem a ver com o facto de se tratar de situações que se arrastam há já muitos anos. Neste sentido, revela, «as reuniões que realizamos com as famílias e as pessoas que se encontram em tratamento servem para partilhar experiências e emoções».
Quando o tratamento não tem uma taxa de sucesso logo no primeiro internamento, Filipa Cardoso adianta que a recaída tem um impacto negativo na família. «Nestes casos temos de mostrar aos familiares que a recaída faz também parte do processo e que é preciso ter força para continuar o tratamento».Contudo, e quando o utente consegue ultrapassar por completo a sua dependência com o álcool, a responsável refere que, curiosamente, há quem continue a frequentar as reuniões mensais mesmo já tendo feito o tratamento há muito tempo. «É sinal que as reuniões continuam a ser positivas nas vidas quer dos utentes, quer das suas famílias», conclui.
Fonte: Jornal da Madeira/Lucia Mendonça da Silva
Fonte: Jornal da Madeira/Lucia Mendonça da Silva

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