segunda-feira, 23 de março de 2009

Os números deste fenómeno não são consensuais: A 'Mão Amiga' fala em 35 mil alcoólicos

(Nota prévia: Por motivos profissionais acho este assunto/notícia, merece um destaque no meu blog)

Anos e anos, mais de 20. Maria não sabe precisar quando começou o inferno, a sua história de violência e álcool. No fim, antes de sair de casa e deixar o pai dos filhos, era insuportável partilhar o mesmo quarto tal era a intoxicação. Incapaz de continuar a viver aquela rotina, encheu-se de coragem e pediu ajuda à Associação Presença Feminina. Hoje, vive sossegada numa casa onde paga renda, mas tem várias questões pendentes e processos em tribunal. O companheiro recusou-se a abandonar a casa onde viviam e, apesar de a ter perseguido até à casa de abrigo e das ameaças de morte, o sistema de Justiça entende que não existem provas para o dar como agressor e ordenar uma desintoxicação alcoólica compulsiva. "O pai dos meus filhos nunca quis fazer um tratamento, não assume que é um doente".
A história de Maria é semelhante à de outras mulheres que pedem ajuda à Associação. Os seus relatos referem que, além de violentos, os agressores têm problemas com a bebida. Helena Pestana, a presidente da Presença Feminina, mostra os números: 193 casos em 718 novos atendimentos. "Pode parecer pouco, mas se formos ver com atenção, há um número muito maior que refere que os maridos, os companheiros tomam só uns copinhos".
O álcool é, quase sempre, uma agravante do quadro. Potencia a violência contra a família, está por detrás de grande parte dos homicídios, dos acidentes de viação e dos suicídios. Rui Cardoso, da Associação de Alcoologia 'Mão Amiga', tem presente a história de um professor, homem novo que, ao cabo de sete tentativas de desintoxicação, acabou com a dependência e com a vida.
Há quase 20 anos que lida com alcoólicos, conhece os truques, as desculpas, as justificações. Porque se começa a beber, como se acaba dependente? Rui Cardoso não preconiza uma lei seca, mas entende que a sociedade é permissiva, às vezes de mais. E, para ilustrar, mostra recortes de jornais. O 'rali das tascas' da semana académica da Universidade da Madeira, os comas alcoólicos no Natal e nas férias no Porto Santo. O acesso é fácil, os consumos começam cedo e o responsável pela 'Mão Amiga' volta a mostrar as notícias de intoxicações aos 13 anos para celebrar o fim do ano lectivo. "Não se faz nada sem beber". O álcool é lícito e, embora seja proibido, ninguém é multado por vender a menores de 16 anos ou a indivíduos embriagados.
O acesso fácil, a cultura que promove o consumo, as tradições familiares e as próprias circunstâncias de cada pessoa, a sua personalidade e momento na vida desembocam em dependência. O estudo epidemiológico, feito em 2006, mostrou que há, entre a população madeirense, 7,6% de potenciais dependentes. Os números, no entanto, não são consensuais. Rui Cardoso, da 'Mão Amiga', refere a existência de 35 mil madeirenses com problemas de álcool, mas Emanuel Alves e Sérgio Lima, psicólogo e enfermeiro do Centro Ricardo Pampuri da Casa de Saúde de São João de Deus, dizem que os 7,6% são o que mais se aproxima da realidade, resulta do único estudo sobre consumo de álcool feito até hoje na Madeira, que representará um universo de 15 a 20 mil dependentes.
15 ou 30 mil dependentes, o que os técnicos e responsáveis pelas associações conhecem são as pessoas que chegam a pedir apoio. São encaminhadas por amigos, pela família ou pelas comissões concelhias de saúde mental que funcionam nos centros de saúde. Alguns aparecem por recomendação do tribunal, pois foram apanhados a conduzir com álcool ou na sequência de processos de violência doméstica. "Aqui não há internamentos compulsivos por ordem do tribunal", explica Sérgio Lima, coordenador do Centro Ricardo Pampuri, mas todos os que chegam são recebidos e encaminhados, não há listas de espera.

23 camas ocupadas a 100%
O Centro do Trapiche tem 23 camas e, desde Janeiro, que a ocupação é de 100%. A porta do Centro está aberta, ainda que os doentes tenham que fazer uma desintoxicação de 28 dias em regime de internamento.
O mais difícil é a primeira semana, a primeira de uma vida de total abstemia. Os alcoólicos recuperados carregam esse fardo numa cultura em que o álcool é a droga autorizada. "Todas as sociedades e culturas têm uma droga legal. Nós temos o álcool, Marrocos, por exemplo, tem o haxixe". Nóbrega Fernandes, psiquiatra e director clínico da Casa de Saúde de São João de Deus, lembra que a cura é essa, não beber mais, nem sequer uma cerveja sem álcool.
De facto, as recaídas entre os alcoólicos que passam por processos de desintoxicação - sejam em regime de internamento ou em ambulatório - começam quase sempre por uma cerveja sem álcool. "É um engano, não há cerveja sem álcool", esclarece Eduardo Lemos, enfermeiro-coordenador da Casa de Saúde. Em letras pequenas nos rótulos das garrafas aparece a informação sobre a quantidade de álcool destas cervejas, além disso, como sublinha Rui Cardoso, da 'Mão Amiga', o mais importante para um alcoólico é cortar com a rotina do beber, do passar no bar. "É preciso aprender a viver sem brindes, não há ocasiões especiais, não é possível beber apenas um copo, um alcoólico não pode fazer isso, perdeu o direito a isso". É, desde que decide fazer um tratamento, um alcoólico em recuperação e não se pode esquecer disso. Os tratamentos, no entanto, não são em seco, há maneiras de atenuar o sofrimento dos primeiros tempos da desintoxicação. Dependendo do caso, há medicamentos para compensar o corpo e outros para ajudar a dormir, alguns para tratar a depressão que surge depois, quando se cai em si e percebe o sofrimento que se causou. As pessoas ficam a pensar na mulher, no que disseram, sentem que a família cortou com eles e, com isso, surge um novo sofrimento. Sérgio Lima, o enfermeiro do Centro, lembra-se bem da história de um doente. "Tinha um filho de quatro anos que vivia aterrorizado com as bebedeiras do pai, escondia-se debaixo da cama. A primeira vez que o abraçou foi no primeiro fim-de-semana que foi a casa, o miúdo não o queria largar, tinha o pai sóbrio pela primeira vez".
Há histórias mais alegres, mais descontraídas, como a que conta Emanuel Alves, quando, em Janeiro, lhe apareceu um doente com um presente, um isqueiro. "Era para agradecer, há anos que o homem não via o fogo do fim do ano". O sucesso, nestes tratamentos e de acordo com avaliações feitas aos números, aponta para uma taxa de 50% ao fim de dois anos. "Costumo dizer que quando conseguem passar o primeiro Natal, que é uma época festiva, de muita alegria e consumo, conseguem ultrapassar o problema, mas há recaídas ao fim de 20 ou 30 anos. Aí pensam que estão curados, festejam o nascimento do neto e zás, volta tudo ao mesmo".
Além do acompanhamento psicológico, das reuniões mensais e dos medicamentos para superar depressões, os alcoólicos devem estar conscientes do seu problema, da sua dependência.

Agricultores e pedreiros? Não só
No Centro aparecem doentes de todas classes profissionais, mais ricos, mais pobres, todos partilham a dependência, ainda que tenham ideias diferentes, como explica Sérgio Lima. "A maioria, por uma questão cultural, ainda vem da agricultura e da construção civil, onde ainda há o mito de que a bebida dá força".
Os outros, que escondem o internamento com férias, não se reconhecem nos bêbedos. "Dizem sempre que não são bem alcoólicos como os agricultores ou pedreiros". E têm estratégias mais sofisticadas para explicar a dependência. Foi o trabalho, o stress, a crise, isto e aquilo, e nunca a razão mais certa resumida por Emanuel Alves: "Bebem porque gostam de beber, sejam advogados ou serventes de pedreiro".

Cada vez mais mulheres
Por género, o álcool continua a atingir mais os homens dos que as mulheres, mas a taxa feminina na ocupação de camas no Centro tem vindo a subir. Em 2001 era de 7%, em 2008 passou a 18, nos primeiros três meses deste ano anda nos 26%.
Apesar de o problema ser muito mais masculino, as mulheres aguentam os dramas, seguram a família enquanto podem e as manias dos maridos alcoólicos. Muitas vêm de famílias onde os pais também eram alcoólicos, quase todas arriscam a ter, entre filhos, casos de dependência, seja do álcool ou das drogas.

Filhos viram-se para a droga
Um estudo recente de Emanuel Alves revelou uma relação directa entre um pai alcoólico e o filho toxicodependente. "Normalmente, o filho revolta-se, não consome o mesmo do que o pai, opta por outras substâncias". O modelo, no entanto, reproduz-se, onde antes havia álcool, há agora consumo de droga.
Fonte: Diario/Marta Caires

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