segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Gabriel Telo já descansa em solo pauleiro


A igreja do Paul do Mar foi pequena para acolher a multidão que ali compareceu, na manhã de ontem, para se despedir do 1.º Cabo Gabriel Ferreira Telo, 36 anos depois deste ter perecido na guerra do ultramar, na Guiné.
O regresso a casa de Gabriel Telo só foi possível graças ao trabalho desenvolvido pela Liga dos Combatentes, constituída por elementos da União Portuguesa de Pára-quedistas (UPP) que quiseram trazer para o país os seus últimos homens que estavam na Guiné e com quem este tinha sido sepultado. Apesar de não fazer parte da UPP, cumpriu-se ontem, mais uma vez, o lema que os pára-quedistas defendem: "Ninguém fica para trás".
Esta foi uma cerimónia que contou com a presença de várias figuras madeirenses, com destaque para o Representante da República, Monteiro Diniz, o presidente da Câmara Municipal da Calheta, Manuel Baeta e de Brazão de Castro em representação do Governo Regional.
Foi também visível um número assinalável de antigos combatentes, que ali foram prestar uma última homenagem ao antigo companheiro.
Ainda durante a missa, foi lida uma carta escrita pela irmã do soldado madeirense, Gabriela Telo, numa mensagem muito emocionada. "Sentíamos que tínhamos uma dívida contigo, dar-te um funeral digno. Enquanto sacristão acompanhaste muitos funerais, agora acompanhamos-te até à última morada. 36 anos depois, quando já não havia esperança, voltaste à terra que te viu nascer. Descansa em paz".

1400 nas ex-colónias
Gabriela Telo fez ainda questão de agradecer à Liga dos Combatentes, à TAP e à Câmara Municipal da Calheta, mas em especial à União Portuguesa de Pára-quedistas "pelo gesto nobre para com os restos mortais do meu irmão". Gabriel Telo descansa agora no mesmo sítio que já foi ocupado pelo seu pai. Também presente neste funeral de Gabriel Telo esteve o presidente da Liga dos Combatentes, Avelar de Sousa, que julga ainda existirem cerca de 1400 portugueses enterrados nas ex-colónias.
"Nós trouxemos os pára-quedistas e os companheiros de infortúnio. Mas isso foi apenas a nossa parte. A vinda de todos esses portugueses não depende de nós mas de uma decisão governamental, pela dimensão da operação". Avelar Sousa diz que o funeral deste soldado madeirense representou o encerramento de um ciclo.
"Fechamos um ciclo cujo objectivo era trazer os corpos do cemitério de campanha que tínhamos na Guiné. O último funeral desses homens foi hoje". Opinião semelhante tem o coronel Morna Nascimento, que entende que o Estado deve assumir o regresso destes homens. "Os soldados foram combater para o ultramar em representação do estado português. Para mim, o Estado tem de ser responsabilizado e tem a obrigação de assumir e pagar o regresso desses homens à sua pátria".
Fonte: Diário /Marco Freitas

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