Segundo as listagens, morreram quase 200 madeirenses no ultramar O primeiro cabo Gabriel Ferreira Telo, cujo funeral se realiza amanhã, 35 anos após a morte em combate, era o segundo de cinco irmãos, dos quais três rapazes e duas raparigas. Tanto ele, como o mais velho, jogavam no Clube Futebol União. Ambos foram chamados para a guerra.
Maria Gabriela Telo é exactamente dois anos mais nova. Daí a escolha do nome. É ela quem nos abre a porta, no Paul do Mar, para reviver as memórias do irmão. E é também ela que nos conta que Gabriel Ferreira Telo esteve quase a não ir à guerra. "Como jogava no Clube Futebol União, o clube pagou a um rapaz para ir no lugar do mais velho e também tinha já um escolhido para ir no lugar dele", recorda Gabriela Telo. Contudo, essa pessoa também foi chamada a prestar serviço e Gabriel teve de avançar.
Partiu para a Guiné em Junho de 1971 na Companhia de Caçadores n.º 3518, do Batalhão de Infantaria n. 19, do Funchal. Tinha na altura 21 anos.
No ano seguinte, Gabriel Telo voltou à Madeira de férias. Ficou um mês. A irmã lembra-se ainda das primeira palavras, ao entrar em casa: "Aqui sinto-me muito bem". Essa foi a última vez que o viu.
O primeiro cabo voltou para a Guiné, mas levou com ele roupa para os "pretinhos". "Ele era uma pessoa muito humana". Era também "muito amigo de casa" e "vaidoso, gostava de andar aprumado", lembra Gabriela Telo.
Na Guiné, o primeiro cabo completou praticamente a comissão de serviço. Estava já na cidade quando a sua companhia teve de voltar ao mato devido ao cerco à guarnição de Guidage, em Maio de 1973. A guarnição encontrava-se sem mantimentos e sem munições, pelo que a Companhia de Caçadores n.º 3518 foi nomeada para fazer parte da escolta de uma coluna a Guidage. Conseguiu romper o cerco, mas durante a sua estada sofreu vários bombardeamentos. Num deles, Gabriel Telo foi ferido num braço e, segundo a irmã, acabou por falecer, por falta de assistência médica, a 25 de Maio.
Os que sobreviveram ao ataque acabaram por enterrar os mortos nesse mesmo local.
A notícia chegou à família através de telegrama, enviado para a Fajã de Ovelha. Gabriela Telo lembra-se que estava sozinha em casa quando um rapaz veio chamá-la para atender o telefone na mercearia. Ali, foi-lhe dito que teria de levantar um telegrama na Fajã. Sem meios de deslocação ainda insistiu para que lhe revelassem o conteúdo, mas recusaram-lhe o pedido. Nessa altura, começou a suspeitar de que algo teria acontecido ao irmão. "O próprio carteiro não quis trazer (o telegrama), por isso era preciso alguém que o fosse buscar".
Entretanto, passou um carro que ia para a Fajã de Ovelha, mas poucos metros depois encontrou o irmão mais novo e foi ele quem foi buscar o documento.
A preocupação de Gabriela Telo era com a mãe. "Não queria que ninguém lhe dissesse nada, como se eu pudesse esconder aquilo." Com medo que as forças lhe faltassem, pediu às amigas para que fossem a casa para ajudá-la a amparar a mãe na hora de revelar a notícia.
Alguns tempos mais tarde, chegou a mala com os pertences do irmão. "Eu mexia nas coisinhas dele e parece que estava tocando nele", recorda Gabriela Telo. "A minha mãe depois não queria sair. Aquilo foi muito duro".
A recuperação dos restos mortais de Gabriel Telo só foi possível graças a uma missão da Liga dos Combatentes, constituída por elementos da União Portuguesa de Pára-quedistas, já que entre os mortos estavam três elementos da UPP. O resgate foi possível através de um mapa desenhado na altura pelo coronel Luciano Dinis.
Amanhã, a família vai finalmente poder realizar a cerimónia fúnebre, o que, para Gabriela Telo, representa um certo alívio. "A tristeza maior foi a notícia da morte. Agora, é como se estivéssemos a fazer-lhe uma homenagem. Era aquilo que ele deveria ter há anos, o funeral, e que agora vai ter".
Cerimónia fúnebre
Os restos mortais do primeiro cabo Gabriel Ferreira Telo chegam hoje à Madeira.
A urna será transportada para o Monumento ao Combatente Madeirense no Ultramar, na Nazaré, onde ficará em câmara ardente ao longo da noite, no interior da capela.
Amanhã, pelas 9h30, está marcada a saída do cortejo fúnebre da Nazaré com destino ao Paul do Mar. Naquela freguesia, será realizada uma missa, pelas 11 horas, e, uma hora depois, terá lugar o funeral, apeado, com destino ao cemitério local, com direito a honras militares.
Gabriel Telo será sepultado no mesmo local onde o pai foi a enterrar, a pedido da família.
Fonte: Diário/Sílvia Ornelas
Fonte: Diário/Sílvia Ornelas

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